somos o que lemos/comemos/papamos

Nós somos o que lemos? A esta pergunta é preciso responder de forma positiva: sim, somos o que lemos. Mas somos igualmente o que não lemos. E também o que treslemos daquilo que lemos. E somos o que nunca chegamos a ler, mas sonhamos ter lido. (…)

Ora, este tópico da antropofagia conduziu a minha memória a um livro do historiador alemão Helmut Schwanzkopf, hoje praticamente esquecido. O livro intitula-se “Menschenfressende Schriftsteller des sechszehnten Jahrhunderts” e foi publicado pela editora da Universidade de Aachen, em 1957. Nesse livro, Schwanzkopf defende a tese segundo a qual era comum, durante a baixa idade média e pelo menos até ao século XVI, os escritores devorarem outros escritores. O autor demonstra, com base em diversos factos, que os escritores mais jovens costumavam comer os seus mestres, segundo uma prática semelhante à dos índios das Antilhas, os “caribes” ou “caribs”, que devoravam os mortos para se apropriarem das suas virtudes e qualidades. (…)

Ninguém sabe escrever se não souber ler. Eis porque o escritor começa por ser essencialmente um leitor. Um leitor ávido, obsessivo, fanático, louco. E não me venham dizer que a existência precede a essência – porque a existência aqui é literalmente a essência.

rui manuel amaral

comentários aos molhos

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