por ocasião dos pinus pinea deste caminho

existem daquelas coisas que desde sempre soubemos que seriam assim perfeitas.

uma delas é conduzir num dia de sol em estrada aberta. deixar a cidade para trás e meter a mão ao vento. sentir as mais infímas variações de temperatura. sentir o cheiro doce de terra e de calor. ver azul e verde. tocar com os dedos as árvores do outro lado da estrada que se alinham para fazer desta passagem uma ocasião solene. árvores que vi toda a minha vida. perder o olhar em espelhos verdes dos campos de arroz deste mondego. notar a indomável presença da natureza que pinta rebelde a sua vontade. alinhar os campos férteis de milho alto e sonhar com ele amarelo e com restolhar de tardes entregues a domar o silêncio. percorrer esses campos verdes com natureza que me engolia e que cortava a minha pele. o toque aveludado de um pé milho, da erva sempre fresca. a água cristalina do ribeiro. as flores silvestres e o aroma de pinhais que estão a roubar-nos à praia. o toque do meu melhor amigo. e histórias a correr soltas.

o perder de vista foi inventado para eu poder dizer que me perdia a olhar os pinus pinea. não levo este caminho sem os ver. sem ver aquele que alimentava os verões e as gulas desenfreados de uma parelha de irmãos que munidos de pedras e muita lata afinava gostos e desculpas para estar a roubar as pinhas aos vizinhos emigrados na venezuela. e tardes com dedos lambidos de resina e pó preto dos pinhões. ou as pevides da abóbora que a minha avó secava sempre só para mim. a única pessoa que as comia. a única que também enfiava os pés descalços na eira cheia de milho a secar e inventava padrões.

as copas contrastam com a terra que se aclara com a proximidade do destino. areia fina castanha muito clara que dará lugar a um amarelo que chamam de branco. as parreiras não escondem nada e as vinhas da bairrada são uma  terceira, quarta, quinta casa. tenho tantas casas que nem sei. avanço rápido para setembro e  vindima. comer uvas directamente da cepa. levar para casa aqueles cestos das ‘boas para comer’. pele a escorrer açúcar. suor. chuva. a pausa para a bucha e o burburinho da família que se junta toda para a vindima. novas e recados. o som inconfundível da tesoura de podar que fecha e anuncia mais uma adicção ao cesto. o lagar. o pisar das uvas. e aquele cheiro que se entranha em tudo. meter os gatos a nadar nas dornas que estão a inchar. fazer delas piscinas inprovisadas.

ir a casa do avô cheirar a aguardente a ser destilada. e algures por aí reencontrar o ritual da matança do porco. aflitivo. mas aquele cheiro inconfundível que reencontrei nos blocos operatórios. lavar as tripas na vala e contar pedras e alfaiates. deixar as pontas dos dedos ficarem engelhadas e frias. arrepiar caminho e voltar para a beira do lume e do forno onde se coze broa.

hoje quando abri os olhos não supus que a viagem seria para tão longe.


comentários aos molhos

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