estou a tratar do meu conforto. after life.

vou ser madrinha do meu sobrinho mais velho.

porra. ainda me lembro de formular o pensamento *que se foda. não estou para isto. a catequese é uma seca do caralhinho e se faço o crisma ainda tenho que ser madrinha de alguém. tenho mais que fazer ao dinheiro que andar a dá-lo assim a putos.*

isto tinha eu uns 10/11 anos. já em meu perfeito juízo. na altura o meu irmão era um ser anti-social e eu estava profundamente convencida que daqueles lados prole não seria algo que sucedesse. enganei-me. sou tia. não de um mas de dois putos. giros ainda para mais. ah pois.

e gramei com a primeira comunhão e a comunhão solene e profissão de fé. e esperar pelos cavalos da gnr que estavam a fazer a manicure. e mudar os lacinhos do vestido que não queria aquilo em rosa. paneleirices. all white. já entrei duas vezes numa igreja toda vestinha de branco imaculado. deus por esta altura já devia saber que eu gosto de abusar da sorte e gozar à grande.

gramei com tudo aquilo. aparentemente levei com missas intermináveis aos domingos em que desesperava pelo ‘ide em paz e que o senhor vos acompanhe’ como um perdido no deserto clama por água, abominei os odeiosos e cheios de baba ‘saudai-vos na paz do senhor’ porque o meu pai queria. go figure. as coisas que os homens fazem para tirar as mulheres de casa.

adiante. eventualmente lá consegui, pela força da argumentação, persuadir a deixarem-me dormir até ao meio dia ao domingo. debati-me posteriormente com um inquietante encurtar dos domingos por força desse hábito. mas porra, não ia à missa.

deus seja louvadinho por isso.

nasceu o meu sobrinho. com o passar do tempo comecei por ser questionada se era a madrinha do miúdo. ‘sei lá. a mim não me disseram nada.’ entrei em longas e infrutíferas discussões acerca desse papel. já sou a tia. *tiiiiiiiiiiiiiia o miau? conta-me uma tória, shim? anda! corre atás de mim…shó mais uma vez! shó mais uma!* já sou isso. ainda para mais sou a única tia dele. não preciso de ser a madrinha. podiam arranjar-lhe outra pessoa para o cargo. sempre era mais uma pessoa significativa para o futuro dele. mas não pode ser. és a irmã mais velha, és tu que tens que ser a madrinha. é assim que tem que ser. o teu primeiro filho, o padrinho, tem que ser o teu irmão. é assim que é! risos sarcásticos em relação a essa questão dos meus filhos. ingénuos.

passaram meses. anos. ouvi a minha mãe lamuriar-se porque o netinho dela era uma alminha perdida. ainda tentei encontrar nisso razão para o miúdo ser demoníaco. ahahahah. aparentemente a minha mãe não percebe o meu sentido de humor. nota mental futura que mantive bem presente ‘não fazer piadas com o facto do tiago ser levado da breca’.

um dia entre colheradas de sopa lá me foi colocada a questão.

olhar apavorado. *oh fodasse. caralho. ca grande porra. e agora não posso dizer que não. aiii que merda. catanos. que o miúdo já me arranca o coiro na altura do natal e dos anos e agora também tenho que gramar com a páscoa. estou fodida. lá vou ter que andar a trabalhar para no mês de abril ficar sempre depenada. é que por acaso nem podia fazer anos noutra altura*’

oh claro que sim. *estou fodida*.

entretanto a data prevista foi adiada. vinha mais um sobrinho a caminho. por momentos respirei de alívio. podia ser que se esse propósito de todo dispensável lhes desvanecesse no espírito e diminuísse nas pretensões. ohhh ledo engano d’alma. as pressões das gerações anteriores tornaram-se ainda mais insuportáveis. agora tínhamos duas criançinhas. duas alminhas. pronto. lá vou ter que andar às compras de roupinha decente!!! decente!!! para ir mentir que nem uma perdida para o altar da igreja da santa terrinha. algo em  mim me diz que quando estiver a dizer que renuncio ao diabo vou ter uma vontadinha estúpida de me rir.

mas, como se não bastasse, parece que a madrinha está encarregue de comprar a roupa do dia do batizado. toda. como em desde as cuecas aos sapatos. tudinho. como se não me bastasse tudo o resto. lá vou ter que entrar com uma pipa de massa para comprar roupa foleira que nem que andassem à chapada comigo durante semanas a fio eu compraria de boa vontade. e a piéce de resistance….a vela, a concha e a toalha. e eu pergunto: wtf?! mas anda tudo a gozar com a minha cara?

eu bem sabia que não queria fazer o crisma. eu sabia que uma coisa destas podia acontecer.

claro que ter estado em frente a um padre que muito seriamente que questionava em relação ao meus hábitos por forma a poder remeter um pedido ao bispo para me dar a permissão para ser madrinha mesmo sem o crisma *sacanas…e andei eu tanto tempo na catequese* valeu a pena.

há coisas impagáveis. responder seriamente ‘não’ à pergunta ‘e vive com algum homem?’ quando me deu um vontade incontrolável de me rir enquanto pensava que viver com um homem não pode ser. hummmm e se forem vários? e isso quer dizer que manter relações sexuais desde que não se co-habite com um homem é aceitável? e que dizer de relações sexuais com uma mulher com a qual se co-habite?

há quem tenha lugares reservados no inferno. eu já tenho uma mansão com campo de golfe. 18 buracos.

4 thoughts on “estou a tratar do meu conforto. after life.

    • sophia says:

      ai margarida… sempre me gostei mais de esconder. atrás da camâra, das imagens. das palavras de outros que bem melhor escrevem aquilo que eu gostaria. inveja, daquelas boas, tua. queria só um terço da capacidade de passar a palavras tudo o que vai cá dentro.

      **

  1. Elphabaa says:

    Sophia podia ser pior, bem pior..imagina que além de um ganhavas dois sobrinhos e afilhados na rifa? Aí sim, era bem pior, responderias às perguntas do padre por duas vezes, compravas a indumentária necessária para os meninos e pronto, eram prendas o ano inteiro..vá, menos mal, menos mal..mas que me fartei de rir lá isso sim, sobretudo com a pergunta do padre..Folgo em saber que já tens mansão reservada no inferno, eu ainda só tenho um duplex..

    • sophia says:

      bem minha cara alexandra…é só um esforço adicional e certamente consegue a mansão. com vistas desafogadas sobre o rio. de lava.
      e quanto a isso dos dois…bem que não sou madrinha de dois. mas tia dos dois cachopos e coitadinhos dos meninos e temos que ser justos e bla bla bla….ruína financeira. nuf said.

comentários aos molhos

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