kimmo pohjonen | teatro académico gil vicente

todas as críticas lidas acerca deste senhor poderia alguma vez preparar-me para igual experiência. à entrada em palco apresenta-se como que trajado para uma cerimónia que exige respeito e preparação anterior. e foi de facto de uma intensa cerimónia sensacional que decorreu dentro daquela sala demasiado pequena para uma sonoridade tão espaçosa que, no entanto, conseguiu alargar o espaço físico do teatro. derrubou todas as paredes convencionadas para a música que se diz de cariz popular, porque pertence ao folclore de uma cultura especificamente conotada a um tempo e a um espaço. e também se diz que por muita boa vontade que se tenha jamais um estrangeiro àquela cultura a poderá entender, percepcionar ou mesmo sentir de forma suficientemente real. um acordeonista finlandês consegue só ele, o homem em cima do palco, dizer-nos na cara: é mentira! vós todos podereis entender-me. a música é som, o som é sensação e a sensação é acultural. e diz-nos isto de forma tão profícua, tal como a riqueza dos sons que produz com o seu corpo, sim porque aquele acordeão brilhante é não mais do que uma parte amputada à nascença a kimmo, que para bem de uma humanidade informada ele encontrou novamente. e também nos fala suavemente ao ouvido como se nos quisesse embalar de volta a um mundo gutural. e guturalmente grita-nos e faz-nos sofrer com as suas dores auto infligidas. e o ritual continua. entre murmúrios que nos remetem para o imaginário budista ou pelas movimentações que nos lembram que há não muito tempo se louvava a natureza em terras europeias, pohjonen continua. absorto nos seus sons. e que sons são aqueles que se sentem físicos, espaçosos mesmo? não interessa. quase se sentia a música a ocupar o espaço vazio à sua volta. e para todos aqueles que não acreditam em objectos voadores não identificados talvez um concerto deste senhor os faça mudar de ideias. pelo menos no que diz respeito a objectos sonoros que ecoam fugazmente à nossa volta fazendo-nos regressar a terra, lembrando-nos que estamos sentados numa sala de espectáculos. e esses objectos que nos trazem a terra levam-nos outra vez de volta para a floresta mágica. e este movimento contínuo agrava, com tudo de bom que daí pode sair, a densidade das sensações. porque este é um espectáculo eminentemente sensacional, hedónico. as emoções essas ficaram dentro da caixa do acordeão. tudo o que nos é reservado é sentir plácida e violentamente tudo o que aqueles homens querem que sintamos. porque, certamente kimmo pohjonen cresce acompanhado por samuli kosminen. a envolvência criada pelos samples aplicados de forma tão rigorosa preenche o ar, não deixa espaço algum sem um pedaço de som que possa ser quase visto. o ritual nunca está completo só com o profeta. são precisos seres iluminados para preencher a noite. o engenheiro de som heikki isso-ahola e ari ‘valo’ virtanen responsável pelos desenhos de luz são também eles iluminados. apenas kimmo pohjonen não seria capaz de nos transportar para uma experiência quase religiosa. os seus homens de confiança ajudam na construção de uma experiência materializada à frente dos nossos olhos, à nossa volta, dentro de cada pedaço de cada um. esta experiência, se evidenciada em álbum só desabrocha para a beleza intensa quando experienciada ao vivo. todos nós deveríamos poder ver, não só ouvir. de preferência ouvir no final. já que a sensação extrema é a de que a qualquer momento posso deixar este mundo por isso deixem-me sentir intensamente antes de ir. quando morrer espero ouvir estes sons extremos de beleza cruel. ou outros semelhantes, também eles produzidos por seres iluminados. regressar ao palco três vezes significa que se gostou. ser aplaudido intensamente de pé, cerimoniosamente, com todo o respeito que um ritual exige é sinónimo que nós gostamos. muito. ouve uns quantos seres em coimbra que ontem à noite tiveram a oportunidade de serem iluminados pelo profeta pohjonen. e certamente se renderam, juntando-se aos seguidores deste errante do mundo. quando joão bonifácio pede “uma estátua para pohjonen, s.f.f.” eu concordo. voluntario-me para subscrever esse grande propósito. e acrescento: um kimmo pohjonen em cada lar. por favor!

kimmo pohjonen | kluster tour | teatro académico de gil vicente | 1 dezembro 2004

comentários aos molhos

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