
via coisas do arco da velha
acabei de ver o corpo de saramago a chegar a portugal. entre ontem e hoje já vi, revi, ouvi falar, ouvi-o a ele, falaram dele e falaram mais um pouco. o habitual quando alguém morre.
ontem soube que tinha morrido e pensei imediatamente que quando o descobri, a medo confesso, por todos os demónios que circulavam acerca desse escritor impossível que é saramago, senti-me pequena. pequena porque me contou uma história deliciosa, simples. e não vi nenhum demónio. só vi um homem que parte de coisas simples e delas faz histórias. fechei o livro daquela forma que adoro. com um sorriso. sorri há poucos dias quando fechei ‘as intermitências da morte’. sorri muito, sorri lá dentro.
parece que ontem a morte estava ao serviço.
ontem também deparei-me com a capa daquele livro ali em cima. levantei-me imediatamente e passei dedos por lombadas. sim, está aqui. sempre o comprei. compras compulsivas de livros usados. porque o preço, por favor, é impossível não comprar. este lembro-me de ter visto a cor da capa no meio de pilhas de livros amarelecidos. a ilustração doce. o gigi ali simplesmente. olhei para ele e disse.pff também não é por um euro. quando cheguei a casa abri-o e reparei que a tradução é de saramago. se todos os acasos da tua vida fossem assim bons.
agora o homem é santificado, desprovido de defeitos, de falhas. a morte é assim redentora para quem parte. o homem, esse pertence apenas aqueles que com ele privaram. e são deles as tristezas e as dores das despedidas.
não me entristece que tenha morrido. nascemos todos para isso. poderia pensar que já não escreve mais. mas ainda tenho tanto do que ele escreveu para ler.
alegro-me que o tenha feito. que tenha escrito. que me tenho feito sorrir. e que me tenha acompanhado por tantas horas. e por muitas mais que acompanhe no futuro.
o lugar é mais que comum. o homem morreu mas ele foi maior que a vida do seu corpo. e essa vida fica cá.
don't save it just for yourself. share!